Ataco todo dia a morte a facas.
Mas eu sempre sangro.
2/05/2010
1/20/2010
PORTA-RETRATO
Já faz tempo nossa última foto
juntos...
Já era um adeus
do presente?
Já era um artigo
de saudade?
Já era nos querermos in memoriam
como se reza uma missa?
Já era um ramalhete de flores
há uma semana sobre o piano?
Já era o Salmo aberto,
a porteira aberta,
os braços abertos?
Já era a luz flagrada
em nudez?
Já era a ruga disposta
na face?
Já era o lugar perdido
na pasta?
O que foi que dissemos,
qual foi o sorriso,
quais foram os olhos?
Um símbolo?
Um anúncio?
Uma promessa?
juntos...
Já era um adeus
do presente?
Já era um artigo
de saudade?
Já era nos querermos in memoriam
como se reza uma missa?
Já era um ramalhete de flores
há uma semana sobre o piano?
Já era o Salmo aberto,
a porteira aberta,
os braços abertos?
Já era a luz flagrada
em nudez?
Já era a ruga disposta
na face?
Já era o lugar perdido
na pasta?
O que foi que dissemos,
qual foi o sorriso,
quais foram os olhos?
Um símbolo?
Um anúncio?
Uma promessa?
1/03/2010
A MÁQUINA DO MUNDO (Carlos Drummond de Andrade)
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
(Além de constar em Claro Enigma, o livro de Drummond do qual eu mais gosto, trata-se de um poema universal e atemporal sobre a recusa da vida, sobre o encapsulamento do ser humano diante daquilo que jamais compreenderá. O que no século XVI era entendido como funcionamento, como estrutura organizada e complexa, no século XX torna uma metonímia da condição humana mecanizada e submissa à onipotência de um mundo que elide o humano. Magnifíco!!!)
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
(Além de constar em Claro Enigma, o livro de Drummond do qual eu mais gosto, trata-se de um poema universal e atemporal sobre a recusa da vida, sobre o encapsulamento do ser humano diante daquilo que jamais compreenderá. O que no século XVI era entendido como funcionamento, como estrutura organizada e complexa, no século XX torna uma metonímia da condição humana mecanizada e submissa à onipotência de um mundo que elide o humano. Magnifíco!!!)
11/22/2009
PAISAGEM MARINHA
Pousado num galho do morro
milhões de pássaros debatem-se
no chão
Rente ao mar
o sol adormece
como um gemido
Asas retorcidas
escavam o ouro
nas vozes silenciadas
Súbito um estampido!
fecho os olhos
mais uma vez.
milhões de pássaros debatem-se
no chão
Rente ao mar
o sol adormece
como um gemido
Asas retorcidas
escavam o ouro
nas vozes silenciadas
Súbito um estampido!
fecho os olhos
mais uma vez.
11/14/2009
RAUL (fragmento)
Raul aguçava a visão, procurando deter-se nos rostos e nos corpos vizinhos, mesmo nos distantes. As luzes dançavam no escuro, e ele estava cansado. Sentia as pernas se enfraquecerem, já não dançava no mesmo ritmo, "Let me tell you, you know I need a miracle"... os pés lhe doíam até a alma, tantas procuras, aonde o conduziriam? perguntava-se olhando o grande espaço que começava a esvaziar-se, perguntava-se sem formular em palavras uma certa angústia. Olhava o escuro da penumbra imaginando se já havia amanhecido lá fora. Talvez fosse um domingo de sol, claro, quente e novo como parecem ser todos os domingos de sol. Dormiria até tarde, isso ele pensou em palavras, "it's more physical what I need to feel for you"...
11/08/2009
APENAS
Apenas uma nuvem, sob o sol da cidade, nos espelhos enrugados dos carros, nos rostos aturdidos da miséria cotidiana... Uma nuvem tingida por um fraco fio de fogo, tecido sobre meus olhos inconsistentes... Ouço músicas duras, músicas dos passos pesados das tardes escurecentes... Uma nuvem tímida domina a noite da cidade... Perdi amores ao longo das avenidas surdas... Mas nunca consigo obter seu perdão... A nuvem some, não há lua alguma entre as faces obscuras do meu desespero...
10/18/2009
NUM MONUMENTO À ASPIRINA (JOÃO CABRAL DE MELO NETO)
Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.
*
Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.
(João Cabral de Melo Neto. A Educação pela Pedra. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996)
(Um poeta é capaz de animar o inanimado, revelar a vida ávida oclusa na pedra, a complexidade febril do simples... João Cabral foi mais que um poeta: foi um mestre.)
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.
*
Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.
(João Cabral de Melo Neto. A Educação pela Pedra. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996)
(Um poeta é capaz de animar o inanimado, revelar a vida ávida oclusa na pedra, a complexidade febril do simples... João Cabral foi mais que um poeta: foi um mestre.)
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