10 de outubro de 2005

O terremoto de Islamabad


Catástrofes naturais sempre aconteceram, e o homem, diante do que não pode evitar, duvida de sua inteligência e de sua potência. Nós, tão pequenos, tâo incapazes e, ao mesmo tempo, tão ágeis num mundo arisco como um animal selvagem.
Os escombros e as lágrimas proliferam em Islamabad. A destruição daquilo que parecia seguro sob um chão firme e imutável faz soar na nossa mente o som do... que nome dar ao que não nos pertence? Com qual termo podemos, incipientes, definir o indefinível? Faltam palavras, como faltam idéias suficientes para compreender "Deus", "tempo", "acaso". "Destino?"
Há poucas semanas, minha vida estava planejada pelo menos até o final deste ano que caminha para o fim. Então, resolvi algo totalmente diferente. Aonde foram meus planos? Desfizeram-se, para que outros nascessem. E, assim como estes agora estão aqui, dentro de mim, eles podem também tomar outra direção.
Pois, na verdade (caso ela exista), o que nos pertence, ainda que de forma tênue, indecisa, é isso: uma noção ainda vaga, ainda imprecisa, denominada VIDA.

18 de setembro de 2005

De volta a casa

Estou de volta após um longo tempo de ausência. Mas trata-se de algo incipiente ainda. Gostaria muito de ser um escritor contumaz, que tivesse a habilidade de despejar palavras num papel ou numa tela de computador com o descompromisso de uma criança que brinca. Não a possuo.
Para escrever, penso demais, já que a palavra tornada arte prescinde do imediato, do excesso, do temerário. Penso com a vacilação de quem não admite o erro, embora a arte, tal a vida, constitua-se de erro, que vira acerto, mas em princípio é erro.
Talvez escrever seja antes de tudo uma obsessão, uma idéia perseguida, mais que algo realizável. Porém, enquanto minhas dúvidas não encontrarem respostas plausíveis, eu escrevo, numa atitude rodriguiana, clariceana.

21 de dezembro de 2004

Perguntas

Completei vinte e cinco anos de vida no último dia dez de dezembro. O tempo passa com uma impavidez tão imperceptível quanto devastadora. Ainda ontem, eu era um menino assutado em relação ao mundo, medroso, inseguro, triste por não encontrar sequer caminhos que pudesse percorrer para chegar aonde quer que fosse. Hoje me vejo homem, ainda com uma grande tendência à melancolia, mas mais forte do que antes.
As perguntas continuam as mesmas, mas, pelo menos, sei que algumas delas nunca obterão respostas plausíveis. Quando, aos quinze anos, eu me questionava sobre o que seria uma década depois, apareciam nas minhas idéias apenas neblinas, apenas sonhos encobertos por neblinas, sonhos sem formas ou esperanças. Agora, tenho coisas que fazem de mim alguém, porém um alguém que ainda não sabe o que é, como se definir.
Sou um professor de Português, sou um cantor amador, faço parte de uma pequena família, tenho alguém com quem divido minha vida, tenho amigos... continuo tendo sonhos. E? O que faz de cada um de nós um ser humano? O que explica o fato de estarmos aqui? O nosso destino é incógnito, e com isso somos obrigados a nos conformarmos.
Por que me sinto tão só, tão desamparado, por mais que haja circunstâncias que me inscrevem numa situação definida? Qual a origem dessa sensação de abandono?
Ao lado desses questionamentos por si sós tão angustiantes, há outros que poderiam me ajudar senão a aliviar minha agonia, pelo menos a transcendê-la: eu sou um escritor? Eu realmente tenho talento para transcender a vida e transformá-la numa obra de literatura? Pois a arte é superior à vida... É claro que não se pode ter certeza do imanentemente incerto; entretanto, se eu soubesse estar no caminho, isso já seria um bálsamo. A metáfora da vida é a própria vida???

4 de dezembro de 2004

Em Busca do Tempo Perdido

A perseverança não é um dos meus atributos mais desenvolvidos, mas estou dedicado a uma empreitada da qual não pretendo desistir tão cedo: ler Em busca do tempo perdido até o fim. Já li No caminho de Swann duas vezes, e agora me delicio com À sombra das moças em flor.
Não é tarefa das mais fáceis, não só pelo tamanho da obra, támbém pelo conteúdo. Proust é exigente, ardiloso, inteligente, de uma erudição que demanda muito de nós. Mas está valendo a pena (o sofrimento). Porque trata-se de um sofrimento que engrandece, que eleva.
E penso no quão tardiamente entrei no mundo da literatura, o quanto estou defasado em relação àqueles que começaram bem mais cedo, lendo Monteiro Lobato nas tardes passadas em bibliotecas ou em suas casas acompanhados de seus livros. Comecei, verdadeiramente, aos quinze anos, quando descobri, numa aula de Português da escola, a poesia romântica de Álvares de Azevedo e de Castro Alves. Mas apenas na faculdade é que fui saber o significado de cada poema, de cada verso, da importância da palavra, da arte.

17 de novembro de 2004

Grandes autores

Confesso: sou um diletante da arte. Por mais que alguns críticos, como Gombrich, defendam que não existe uma Arte, com A maiúsculo, uma entidade abstrata chamada Arte, é impossível crer que ela não exista. Penso assim porque, se não houvesse a Arte, não haveria artistas, esses guerreiros que contam com poucos instrumentos, rústicos, triviais, banais, que, devido a um trabalho consciencioso e árduo, constroem grandes monumentos, catedrais, sejam esculturas, músicas, literatura.
O que me motiva a escrever isso é ter tido contato, no meu pouco tempo de estudante de literatura - sim, porque, antes de tudo, sou um estudante -, com autores que fazem da vida um circo tão desengonçado se comparado às suas obras. Acabei de ler O Agente Secreto, de Joseph Conrad, um romance que mistura uma intriga policial com discussões ideológicas e magníficas sondagens psicológicas. Um romance que me trouxe à lembrança o Dostoiévski que conheci em Crime e Castigo. E me pergunto: se isso não é Arte, é o quê?
Como sou um admirador do gênero romance, fico me indagando, numa obsessiva curiosidade, se minha vida seria a mesma se eu não tivesse conhecido obras de Faulkner, Conrad, Dostoiévski, Marcel Proust, Machado de Assis...
São autores com que, depois de termos contato, por mais superficial que seja, com seus romances e contos, ficamos estagnados, pasmos diante de tanta capacidade de enxergar o ser humano, e exclamamos, num misto de admiração e surpresa: Puta que pariu! porque nenhum adjetivo pode caracterizar o significado de cada um de seus livros.
São como catedrais construídas ao longo de séculos, gigantescas, assombrosas, perante as quais apenas soltamos interjeições guturais, palavras que não são palavras ainda, apenas sons incompreensíveis mas cheios de sentido.

19 de outubro de 2004

O Romance

"A história de Ana" tem ganhado uma complexidade tão grande que não sei nem se é o mesmo romance que há tempos desejo escrever. O que era uma narrativa sem pretensões sobre um assunto com o qual eu possuía alguma familiaridade transformou-se num monumento que habita a mente de seu criador, mas ainda não adquiriu forma.
Na verdade, está virando uma indagação a respeito do mal. O que é o Mal? Quais as dimensões de um ato malévolo? Que direito uma pessoa tem de interferir na vida de outra, destruindo suas esperanças, seus sonhos, suas ilusões?
Essa pergunta foi feita por praticamente todos os grandes escritores, porém nunca foi respondida; não se pode saber a medida do incognoscível.

14 de outubro de 2004

As Ondas (sobre uma visão do mar)

No último feriado prolongado, fui à praia. Fazia mais de dois anos que não ia ao litoral, e ver o mar novamente teve um gosto de recordação. Lembrei-me de um longínquo fim de semana junto da minha família, quando eu tinha seis anos de idade, em Santos; de uma semana com meus amigos, em Praia Grande, no final do segundo grau. Essa última foi como um ritual de passagem de uma adolescência ainda presa à infância para uma adolescência que caminhava para a idade adulta. Tratou-se de um rompimento, de uma despedida.
Desta última vez estava de novo com pessoas que amo: minha mãe, meu irmão, minha cunhada, meu sobrinho... Era um Fábio bastante diferente daquele Fábio de 16 anos que chorou ao voltar para São Paulo no verão de 1996. Um homem, acompanhado da pessoa que escolheu para ficar do lado, comprometido com o trabalho, com o amor, com a vida...
E, por quatro dias, apesar da consciência sobre as responsabilidades e as dificuldades, deixei-me entregar ao fluxo da vida, sem me interrogar, sem refletir no que estava acontecendo, vivendo apenas. Isso porque, nos tempos recentes, tenho me questionado bastante a respeito do que tem acontecido comigo, das minhas atitudes, dos caminhos que devo seguir. Parar de pensar tanto e me permitir momentos de tranqülidade foi saudável.
Entreguei-me à visão do mar.
E a vida é como o mar. Sim, os poetas que repetem tal idéia e tornaram-na um clichê jamais deixaram de ter razão. Sim, a vida é tão misteriosa e fascinante quanto o mar. O fascínio não oculta o medo, o mistério se agrega à beleza impávida. Nem todo o conhecimento pode diminuir a paixão, esta que nunca se explica. Duas ondas não são iguais, duas vidas não são iguais.
E, se a vida é temor, fuga, interrupção e trabalho, ela também consiste numa entrega, num abandono, num fluxo o qual nenhum ser humano compreende completamente.