5 de março de 2011

CARNAVAL

A carne solitária na carne.
Carne sem carne, sem alma, sem osso.
Carne de pólvora, de estilhaços.
A carne cansada da carne.
A carne cansada de carne.
Carne para a qual não há vela, não há sopro, não há sobra.
Carne justa e injusta,
desajustada.
Resquícios dela a cada suspiro dela, o provisoriamente último.
Transbordamento, aviltamento, animação.
Carne morta-viva. Mas morta.

28 de fevereiro de 2011

COMEÇAR

Começar é aquilo que nunca começa, é um fim já quando começa. O fim do que nunca começa já no seu primoderradeiro suspiro, seu grito de desejo e de renúncia, sua abstenção plena de desesperança e de perseverança.
Começar é um átimo, um relâmpago em meio às trevas soturnas do amanhecer. Ouve-se um grito, e já não se trata de grito, mas de súplica indiferente. Quem nos ouve? Que tranquilidade se perturba com o mover dos lábios convulsos aqui no interstício entre uma verdade e a Verdade? Começar é uma dor maior que a dor.


5 de janeiro de 2011

NOITE

A noite não é totalmente escura. Ela é algo entre o avermelhado e o roxo, um azul celeste que se tingiu de sangue e coagulou-se. O medo da noite não é a sua escuridão, mas a sua insuficiente claridade. Mesmo com os olhos incapazes que temos, quanta verdade desvelada e revelada na noite! Olhar a noite é abrir uma vala no peito...





(Vincent Van Gogh. Noite Estrelada)

24 de dezembro de 2010

DOS PORQUÊS

Por que de uma palavra mal dita um mundo inteiro se finda? E, agora que o reencontro, nem me lembro do que eu disse outrora. São tantas as respostas para perguntas que se repetem há milênios, todas insuficientes, ânforas sem água, água que mais sufoca que mata a sede. Leio-te no pensamento como a um diário antigo aberto sobre a cama ainda quente. Por que ainda estás aqui na tua ausência? Esse demorar da saudade me traz tanta vida que me sinto morrer. Por que não me despedes de mim? E, quando te beijo, é como escrever um livro cujas páginas são todas o começo da história. Uma alegre tristeza finca suas unhas na minha pele. Por que não é essa a dor que me faz chorar? Por que o tempo acabou, se ainda temos tanto tempo?

23 de dezembro de 2010

UM HAICAI

Chuva na janela...
Noite quente... Muito vento...
Logo será dia.

26 de junho de 2010

UMA CONSIDERAÇÃO SOBRE A ESCRITA

Escrever é doloroso. Antes de ser aquela dor romântica de quem se sente predestinado, escolhido pela deusa Poesia, trata-se de uma dor prática: a de se isolar da vida para revivê-la. Revivê-la na arte de a recriar em forma. Porque é preciso recolhimento (sim, mesmo que se esteja num ambiente público), concentração, desprendimento, liberdade (apesar das contingências da vida).
Escrever é muito doloroso. A dor de não ser útil aquilo que se escreve, saber que nenhum poema ou nenhum romance não servirá a causa alguma, a ninguém. Ou talvez sirva, porém por outras razões que só o leitor conhece (quem dera!). A dor da sensação (às vezes, certeza) de ter perdido tempo não tão precioso vivendo a vida que bane o poeta do seu fluxo para que ele a reconstrua. Ou não. Ou vice-versa.
Sem exagero. Sem fantasia. Escrever é doloroso.

20 de janeiro de 2010

PORTA-RETRATO

Já faz tempo nossa última foto
juntos...
Já era um adeus
do presente?
Já era um artigo
de saudade?

Já era nos querermos in memoriam
como se reza uma missa?
Já era um ramalhete de flores
há uma semana sobre o piano?
Já era o Salmo aberto,
a porteira aberta,
os braços abertos?

Já era a luz flagrada
em nudez?
Já era a ruga disposta
na face?
Já era o lugar perdido
na pasta?

O que foi que dissemos,
qual foi o sorriso,
quais foram os olhos?
Um símbolo?
Um anúncio?
Uma promessa?