Se meu coração cantasse, seria como relâmpagos quase afônicos recortando o céu violeta. Ele talvez ferisse um pouco a paz do céu, ele talvez se contemplasse como um doente estirado sobre uma cama.
Mas, talvez, numa noite simples, ao ouvir os estouros das risadas vizinhas, ele acordasse e levantasse e andasse até a janela mais próxima, veria então uma cascata se espargindo entre as nuvens, luminosa, distante mas aquecedora.
Talvez, então, ele soubesse que de toda dor florescem estradas para um futuro imediato, ele ressuscitaria como quem nasce. Seria como uma árvore cercada de finos vagalumes, tão intratáveis, e tão generosos.
Ele cantaria, um pássaro cujo vôo é muito mais que abrir asas de susto. Ele entraria em cada casa, sem bater, para agradecer a própria voz, recostaria sua cabeça cansada numa poltrona sangüínea e acolhedora, sentiria os perfumes das ceias, dos abraços, dos beijos que um dia daria em silêncio em rostos sangüíneos e acolhedores, intumescidos de suor e de desejo.
Ele saberia que há uma porta de fogo atrás de cada sonho, e que só por essa porta se pode passar, sem olhar para trás, sem se desesperançar.
E voltaria à sua janela.
Universalmente fraterno poema em prosa.
ResponderExcluirLindo mesmo.
Um abraço!