Ele era apenas um homem. Pequeno demais para conter represas, grande demais para beber de suas águas. Ele era mínimo como um coração que bate num corpo sem vida. Olhava rosas sem saber que elas estavam ali para viver para sempre, embora morressem nas navalhas do dia. Procurava adentrar buracos-negros nos olhos dos outros, mas jamais era sugado, ele, que nascera para o vento, para o sol, para si mesmo. Os outros homens o cumprimentavam distraídos, como quem faz o sinal-da-cruz ao deparar um defunto. As mulheres pareciam ignorá-lo, sabendo que aqueles braços, talvez, pudessem protegê-las quem sabe do quê. Tudo tão distante, tudo tão fútil, tudo tão vivo.
Pensar doía como dentes doíam. Os seus dentes de querer doíam. Viver era uma cárie funda que só seria curada com uma extirpação. Vasculhava seus bolsos em busca de algum dinheiro e, quando o encontrava, guardava-o novamente porque gastar mostrava sua despreocupação com o futuro. Ainda viveria muito, sabia. Mas se o que viveria seria alguma espécie trôpega de vida, quem é que saberia. Seus pés pareciam consumir o cimento da calçada e se desfazerem sob a dança entre as nuvens e o sol. Que brilho doente! Que fascinação de se manter cego! E como era bom enxergar!
Ele era apenas um homem. E se colheria do seu jardim de estrelas alguma flor vindoura, algum fruto verde, ninguém jamais poderia saber.
2 de dezembro de 2008
PASSISTA
Acho um exagero a sua ginga
pode ser que eu me escorra da sua face
quando no impasse de um piscar dos altos passos
meu suor se espraie sobre o frio das suas tintas.
Os olhos desse brilho me ignoram
ao me contemplarem se movendo:
garça morena, sereia da savana, voa essa voz
muda que dança em silêncio de serpente.
Nunca beberei da sua pinga
mesmo ardendo as vísceras nas suas unhas
é o que me arranca dos meus nimbos
e me traz até o chão da sua pele de penumbra.
pode ser que eu me escorra da sua face
quando no impasse de um piscar dos altos passos
meu suor se espraie sobre o frio das suas tintas.
Os olhos desse brilho me ignoram
ao me contemplarem se movendo:
garça morena, sereia da savana, voa essa voz
muda que dança em silêncio de serpente.
Nunca beberei da sua pinga
mesmo ardendo as vísceras nas suas unhas
é o que me arranca dos meus nimbos
e me traz até o chão da sua pele de penumbra.
10 de novembro de 2008
O TORSO ARCAICO DE APOLO (Rainer Maria Rilke)
(Um dos poemas mais belos que a humanidade já presenciou, numa versão que, nas palavras de quem entende, recria com igual beleza o original. Aqui, o encontro de dois poetas superiores, como se ambos contemplassem a mesma obra e, desse ver entranhas, chegassem à mesma conclusão: a matéria esconde na sua brutalidade a mão do homem capaz de redescobrir no inanimado a vida que o guia.)
Não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas. Porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta
E brilha. Se não fosse assim, a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.
Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.
Seus limites não transporia desmedida,
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.
(Tradução de Manuel Bandeira)
Não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas. Porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta
E brilha. Se não fosse assim, a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.
Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.
Seus limites não transporia desmedida,
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.
(Tradução de Manuel Bandeira)
3 de novembro de 2008
ELEGIA
(Esse é um dos meus poemas mais antigos. Foi concebido a partir do impacto que causou o poema "Hora absurda", de Fernando Pessoa. Eu fiquei tão encantado com aqueles versos esparsos, queria fazer algo semelhante. E o resultado foi isso. Peço-lhes perdão.)
Hoje chove como um céu que desaba
Sobre campos de flores nascidas há anos!
O céu é um manto sereno que jamais acaba,
Tecido azulado de sentimentos humanos...
Sinto cada dia como um homem perdido que ama
E procura em todos os rostos um rosto especial!
Um cão roçando pernas e postes... Uma chama
Que não queima... Uma brisa no meio de um temporal...
Meu coração pulsa com a ânsia de uma criança,
A fluidez mágica de um anjo e sua espada candente...
O sol se esconde num cobertor espesso de nuvens... Alcança,
Ainda assim meu peito carente, inocente...
E me lembro apenas de ti, que me embalas
Em meus sonhos tristes... Surges, de repente,
Num sorrir cândido, e amas e abres os portais, e calas
Minha boca seca num beijo diáfano e quente...
Tenho medo deste temor que me aquece, enfim...
Saio cabisbaixo através de ruas escuras e infinitas...
E procuro teu rosto distante ao se afastar de mim...
Calo-me no desejo de areias e paisagens mais bonitas...
Meu coração naufraga na alucinação do eterno!
Caminho sem cessar o mesmo caminho de volúpia e dor...
Rejeito-me como o filho ao pai que o abandona ao inverno
De sua vida a se fazer. E a tudo isto se dá o nome de amor...
Hoje chove como um céu que desaba
Sobre campos de flores nascidas há anos!
O céu é um manto sereno que jamais acaba,
Tecido azulado de sentimentos humanos...
Sinto cada dia como um homem perdido que ama
E procura em todos os rostos um rosto especial!
Um cão roçando pernas e postes... Uma chama
Que não queima... Uma brisa no meio de um temporal...
Meu coração pulsa com a ânsia de uma criança,
A fluidez mágica de um anjo e sua espada candente...
O sol se esconde num cobertor espesso de nuvens... Alcança,
Ainda assim meu peito carente, inocente...
E me lembro apenas de ti, que me embalas
Em meus sonhos tristes... Surges, de repente,
Num sorrir cândido, e amas e abres os portais, e calas
Minha boca seca num beijo diáfano e quente...
Tenho medo deste temor que me aquece, enfim...
Saio cabisbaixo através de ruas escuras e infinitas...
E procuro teu rosto distante ao se afastar de mim...
Calo-me no desejo de areias e paisagens mais bonitas...
Meu coração naufraga na alucinação do eterno!
Caminho sem cessar o mesmo caminho de volúpia e dor...
Rejeito-me como o filho ao pai que o abandona ao inverno
De sua vida a se fazer. E a tudo isto se dá o nome de amor...
15 de outubro de 2008
LEDA E O CISNE (William Butler Yeats)

(Um soneto, apenas um soneto: obra máxima de concisão. Mas toda uma história, que mistura o lendário e o real, a ponto de não sabermos mais distinguir o que é verdade do que é ficção. Mas a arte também é real, porque também é construção. A História é terror, violência e fascinação... e morte! O Monstro que encanta e estupra. A Arma que seduz e assassina. Um ciclo que engendra a humanidade e do qual ela jamais se libertará.)
LEDA AND THE SWAN
A sudden blow: the great wings beating still
Above the staggering girl, her thighs caressed
By the dark webs, her nape caught in his bill,
He holds her helpless breast upon his breast.
How can those terrified vague fingers push
The feathered glory from her loosening thighs?
And how can body, laid in that white rush,
But feel the strange heart beating where it lies?
A shudder in the loins engenders there
The broken wall, the burning roof and tower
And Agamemnon dead.
Being so caught up,
So mastered by the brute blood of the air
Did she put on his knowledge with his power
Before the indifferent beak could let her drop?
LEDA E O CISNE
Um baque súbito. A asa enorme ainda se abate
Sobre a moça que treme. Em suas coxas o peso
Da palma escura acariciante. O bico preso
À nuca, contra o peito o peito se debate.
Como podem os pobres dedos sem vigor
Negar à glória e à pluma as coxas que se vão
Abrindo e como, entregue a tão branco furor,
Não sentir o pulsar do estranho coração?
Um frêmito nos rins haverá de engendrar
Os muros em ruína, a torre, o teto a arder
E Agamênnon, morrendo.
Ela, tão sem defesa,
Brutalizada pelo abrupto sangue do ar,
Se impregnaria de tal força e tal saber
Antes que o bico inerte abandonasse a presa?
(trad. de Augusto de Campos)
13 de outubro de 2008
DESCORTÍNIO

(A Samara Sieber)
Descobre no fundo do poço o riso
Com que animas a madrugada fria.
Sabes a vento, penetras o siso
E voas de brilho a imensidão do dia!
Amada, ao lado de ti é Paraíso
Todo breu que circunda a sombra esguia!
Semeias flores e frutos no liso
Estéril. És flor vinda da agonia...
Escavas nas palavras o teu ser,
Amas as montanhas, os rios, os vales...
Onde estavas, ave do infinito?
Agora que me prendes no viver
Que espraias além de todos os males,
Vivemos nosso mundo mais bonito!
7 de outubro de 2008
FÚRIA (Fábio Santos e Samara Sieber)
Na fibra da tarde que aguarda o luar,
foi teu o murmúrio que ouvi ao gritar:
amores e cóleras tênues de luz
(e tudo o que dizes é a paz e seduz).
Entanto me matas,
asfixias meu sol,
engasgas o hálito da minha calma:
onde estás quando me persegues?
No meu ventre, nos meus sonhos,
em lugar qualquer da minha alma?
Lambes meus versos, minhas rimas,
minhas verdades, minhas mentiras.
Invades aquilo que eu penso ser
o meu corpo:
mas é a minha alma.
Tenho medo de ti.
foi teu o murmúrio que ouvi ao gritar:
amores e cóleras tênues de luz
(e tudo o que dizes é a paz e seduz).
Entanto me matas,
asfixias meu sol,
engasgas o hálito da minha calma:
onde estás quando me persegues?
No meu ventre, nos meus sonhos,
em lugar qualquer da minha alma?
Lambes meus versos, minhas rimas,
minhas verdades, minhas mentiras.
Invades aquilo que eu penso ser
o meu corpo:
mas é a minha alma.
Tenho medo de ti.
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