(Um exemplo de esmero no trabalho verbal, de concisão que não é gratuidade nem virtuosismo exibicionista. Um Bandeira a que poucos dão atenção; os outros se deixam seduzir por uma certa "facilidade" que é conveniente, para eles, considerar como poesia. Bandeira mostra que não existe poesia "fácil", nem a simplicidade é espontânea.)
O preto no branco,
O pente na pele:
Pássaro espalmado
No céu quase branco.
Em meio do pente,
A concha bivalve
Num mar de escarlata.
Concha, rosa ou tâmara?
No escuro recesso,
As fontes da vida
A sangrar inúteis
Por duas feridas.
Tudo bem oculto
Sob as aparências
Da água-forte simples:
De face, de flanco,
O preto no branco.
11 de maio de 2009
TÊNUE
Somos fino e frágil fio
tecido para esta terra
em permanente desvio
trilha que nunca se encerra.
Vemos sem dor o vazio
pois quem ora nunca erra
mas este mundo bravio
nenhuma certeza aferra.
(Como posso pequenino
da sabedoria o cúmulo
alcançar só com as mãos?)
Os iguais não são irmãos.
A nós, mortos, resta o túmulo.
Nós, tão-só fio frágil fino.
tecido para esta terra
em permanente desvio
trilha que nunca se encerra.
Vemos sem dor o vazio
pois quem ora nunca erra
mas este mundo bravio
nenhuma certeza aferra.
(Como posso pequenino
da sabedoria o cúmulo
alcançar só com as mãos?)
Os iguais não são irmãos.
A nós, mortos, resta o túmulo.
Nós, tão-só fio frágil fino.
16 de março de 2009
"FORSE UN MATTINO ANDANDO IN UN'ARIA DI VETRO" (EUGENIO MONTALE)
(Esse é um poema curto de Eugenio Montale, do maravilhoso "Ossos de Sépia". É de uma simplicidade e, ao mesmo tempo, de uma vastidão que os grandes artistas conseguem. A solidão máxima e a percepção repentina de que existimos sozinhos num mundo que existe e independe de nós causa um terror de bêbado, o desnorteamento, o medo extremo, a consciência máxima. Montale se abriu para mim com esse poema mínimo e verdadeiro. O artesanato do poema é vertiginoso. De repente, também, como leitores, percebemos que estamos dentro dessa realidade que se abandona para voltar a si mesma, mas agora irreversivelmente dentro de cada um de nós.)
Forse un mattino andando in un'aria di vetro,
arida, rivolgendomi vedró compirsi il miracolo:
il nulla alle mie spalle, il vuoto dietro
di me, con un terrore di ubriaco.
Poi come s'uno schermo, s'accamperanno di gitto
alberi case colli per l'inganno consueto.
Ma sarà troppo tardi; ed io me n'andró zitto
tra gli uomini che non si voltano, col mio segreto.
Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, detrás de mim
o vazio, com um terror de bêbedo.
Depois como numa tela, acamparão de um jato
árvores casas colinas para a ilusão costumeira.
Mas será tarde ~ e eu partirei calado
entre os homens que não se voltam, com o meu segredo.
(trad. de Geraldo H. Cavalcanti)
P.S.: Não menos maravilhoso é o ensaio que Italo Calvino, no fundamental POR QUE LER OS CLÁSSICOS, dedica a esse poema. É um daqueles casos em que a crítica literária realmente se equipara à própria obra.
Forse un mattino andando in un'aria di vetro,
arida, rivolgendomi vedró compirsi il miracolo:
il nulla alle mie spalle, il vuoto dietro
di me, con un terrore di ubriaco.
Poi come s'uno schermo, s'accamperanno di gitto
alberi case colli per l'inganno consueto.
Ma sarà troppo tardi; ed io me n'andró zitto
tra gli uomini che non si voltano, col mio segreto.
Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, detrás de mim
o vazio, com um terror de bêbedo.
Depois como numa tela, acamparão de um jato
árvores casas colinas para a ilusão costumeira.
Mas será tarde ~ e eu partirei calado
entre os homens que não se voltam, com o meu segredo.
(trad. de Geraldo H. Cavalcanti)
P.S.: Não menos maravilhoso é o ensaio que Italo Calvino, no fundamental POR QUE LER OS CLÁSSICOS, dedica a esse poema. É um daqueles casos em que a crítica literária realmente se equipara à própria obra.
8 de março de 2009
DE RELANCE
A língua aguda do amor
corta a madrugada.
Sonâmbulos, os bêbados
olvidam possíveis atalhos
e rastejam pelos muros,
jibóias nos postes.
Uma gata grita de dor
(os outros estão surdos).
Há janelas acesas
para a favela defronte
- nenhuma confessa o pavor.
Em algum jardim,
deceparam-se as rosas.
Restaram, bem longe, muito longe,
jacintos e orquídeas.
Como uma dama-da-noite,
você me abraça...
De repente, percebo
que não sonhava.
corta a madrugada.
Sonâmbulos, os bêbados
olvidam possíveis atalhos
e rastejam pelos muros,
jibóias nos postes.
Uma gata grita de dor
(os outros estão surdos).
Há janelas acesas
para a favela defronte
- nenhuma confessa o pavor.
Em algum jardim,
deceparam-se as rosas.
Restaram, bem longe, muito longe,
jacintos e orquídeas.
Como uma dama-da-noite,
você me abraça...
De repente, percebo
que não sonhava.
27 de fevereiro de 2009
NA PRAIA
Só o vento me acompanha. Ele, que não me vê mas sente o frio que treme no meu corpo. Nada ao redor, a não ser a areia molhada que me faz sentir pesado e infantil. E o mar, que começa no toque dos meus pés e termina no toque no céu, em algum lugar do mundo. O frio também treme sob a pele das águas. Não reclamo dessa solidão tão temida. Meu medo é como a gaivota voando raso, quase nadando, esperando no vôo o peixe indefeso e sábio - ele, que não sabe que espera a morte sem esperá-la.
E se eu entrasse na onda mais alta, se me deixasse ir? Mas tenho medo. Serei capaz de suportar não saber o que até a concha vazia e quebrada já sabia antes de ser uma lembrança? É que deixar-me ir exige uma coragem de herói, e eu, há muito tempo, desaprendi a bondade de ser levado. Passei a escolher meus caminhos, todos eles, até os não-trilhados. Tenho casa, família, livros. Tenho um nome. Sinto um amor enorme por tudo. Não sou nada. Meu coração pulsa de susto fascinado. Meus olhos quedam entorpecidos diante da maravilha que é estar. Saber não me conforma, existe um mundo sem limites na minha ânsia. Quero tudo, e não quero nada. Quero aquilo vibrante entre um segundo que acabou e o segundo que já não será mais porque já foi. Quero o segredo de cada onda.
E se eu for até o fim do mar: encontrarei seu fim?
Eis que ouço uma voz humana, creio eu. Também já passou. Somente o vento me adentra, imparcial, preciso, indômito. Mas ainda estou em pé, e o mar. Escrevo meu nome na areia, sei que isso não é o que sou, mas, ainda assim, estou acostumado a ser o que ele diz. Meu nome é meu medo. Seguir as minhas pegadas que jamais verei é a coragem maior. Sei que, de repente, uma mão quente deslizará pelos meus cabelos como a onda afaga a areia. Por enquanto, sentir os dedos carinhosos do vento abranda minha febre.
E se eu entrasse na onda mais alta, se me deixasse ir? Mas tenho medo. Serei capaz de suportar não saber o que até a concha vazia e quebrada já sabia antes de ser uma lembrança? É que deixar-me ir exige uma coragem de herói, e eu, há muito tempo, desaprendi a bondade de ser levado. Passei a escolher meus caminhos, todos eles, até os não-trilhados. Tenho casa, família, livros. Tenho um nome. Sinto um amor enorme por tudo. Não sou nada. Meu coração pulsa de susto fascinado. Meus olhos quedam entorpecidos diante da maravilha que é estar. Saber não me conforma, existe um mundo sem limites na minha ânsia. Quero tudo, e não quero nada. Quero aquilo vibrante entre um segundo que acabou e o segundo que já não será mais porque já foi. Quero o segredo de cada onda.
E se eu for até o fim do mar: encontrarei seu fim?
Eis que ouço uma voz humana, creio eu. Também já passou. Somente o vento me adentra, imparcial, preciso, indômito. Mas ainda estou em pé, e o mar. Escrevo meu nome na areia, sei que isso não é o que sou, mas, ainda assim, estou acostumado a ser o que ele diz. Meu nome é meu medo. Seguir as minhas pegadas que jamais verei é a coragem maior. Sei que, de repente, uma mão quente deslizará pelos meus cabelos como a onda afaga a areia. Por enquanto, sentir os dedos carinhosos do vento abranda minha febre.
17 de fevereiro de 2009
INTERLÚDIO
Quando o mar encontra o sol,
Não há nuvem como muro,
O olhar é pura penumbra,
E um corado fim de tarde
Com passos de bailarina
Se mascara em noite densa,
Concluo nossa existência:
Enfim descubro que o dia
Nada mais é que uma noite
Sem luz, provisoriamente.
Não há nuvem como muro,
O olhar é pura penumbra,
E um corado fim de tarde
Com passos de bailarina
Se mascara em noite densa,
Concluo nossa existência:
Enfim descubro que o dia
Nada mais é que uma noite
Sem luz, provisoriamente.
31 de dezembro de 2008
O CEMITÉRIO MARINHO (Paul Valéry))
Ó minha alma, não aspira à vida
imortal, mas esgota o campo do possível.
(Píndaro)
Esse teto tranquilo, onde andam pombas,
Freme em tumbas e pinhos, quando tomba
Pleno o Meio-Dia e cria, abrasado,
O mar, o mar, sempre recomeçado!
Ó recompensa, após o ter pensado,
O olhar à paz dos deuses, prolongado!
Que labor de lampejos se consuma
Plural diamante de furtiva espuma
E a paz que se parece conceber!
Quando no abismo um sol procura pausa,
Pura obra-prima de uma eterna causa,
O Tempo cintila e o Sonho é saber.
Tesouro estável, templo de Minerva,
Massa de calma e visível reserva,
Mar soberano, olho a guardar secreto
Sob um véu de chama o sono que acalma,
Ó meu silêncio!.. Edifício em minh’alma
Dourado cume de mil telhas, Teto!
Templo do Tempo, expresso num suspiro
Chegado ao alto eu amo o meu retiro,
De todo envolto em meu olhar marinho;
E como aos deuses melhor doação,
Semeia a serena cintilação
Desdém soberbo em meu alto caminho.
Como no gozo o fruto se dissolve,
E em delícia sua ausência se resolve
Na boca em que se extingue sua forma,
Sorvo aqui o futuro dos meus fumos,
E canta o céu, à alma que consumo,
As margens que em rumores se transformam.
Belo céu, vero céu me transfiguro!
Depois de tanto orgulho e estranho e impuro
Lazer – mesmo com forças a contento -
Eu me abandono ao reluzente espaço
E ao lar dos mortos, feito sombra, passo
Confinado a seus débeis movimentos.
Às tochas do solstício a alma aceita
E bem defende a justiça perfeita
Da luz, com suas armas sem piedade!
Torno-te, em teu lugar de origem, pura;
Mas olha!… ter a luz por criatura
Supõe de sombra uma triste metade.
Só pra mim, exclusividade extrema,
Perto de um peito, às fontes do poema,
Dividido entre o vácuo e o fato puro,
Quero escutar minha grandeza interna,
Amarga, escura e sonora cisterna,
N’alma um vazio som, sempre futuro!
Ó falso prisioneiro da folhagem,
Golfo que engole as grades em ramagem,
Vês nos meus olhos segredos ardentes,
Que corpo ao seu fim ocioso me impele,
Que fronte aos ossos da terra o compele?
Uma centelha lembra meus ausentes.
Fechado, sacro, em fogo imaterial,
Terreno ofertado à luz matinal,
Pleno de chamas – amo este lugar,
Composto em ouro e pedra, sombras, árvores
Onde por sobre sombras treme o mármore;
Sobre as tumbas, fiel, repousa o mar!
Cão esplendente, afasta adoradores!
Quando sozinho, em riso de pastores
Calmo apascento ovelhas misteriosas,
Rebanho branco de tumbas quiescentes,
Afasta logo essas pombas prudentes,
E os sonhos vãos e os anjos curiosos!
Aqui chegado, é preguiça, o futuro,
Toda a secura arranha, o inseto puro;
Queimado e findo é tudo ao ar doado
E a alguma que não sei, severa essência…
A vida é ampla, quando ébria de ausência
Doce amargura , o espírito aclarado.
Os mortos vão bem, guardados na terra
Que os aquece e os mistérios lhes encerra.
O meio-dia imóvel na amplidão
Pensa em si mesmo, e se vê satisfeito…
Completa fronte, diadema perfeito,
Eu sou em ti secreta alteração.
Só tens a mim para te proteger!
Remorsos, dúvidas que eu conhecer,
Do teu grande diamante são defeitos…
Mas numa noite pesada de mármores
Um povo errante entre raízes de árvores
Tem lentamente o teu partido aceito.
Eles se apagam numa ausência franca,
Bebeu a argila rubra a espécie branca.
O dom da vida em flores se recria!
Dos mortos, onde as frases familiares
As artes próprias, almas singulares?
E fia a larva onde o pranto nascia.
Os gritos das donzelas excitadas,
Os olhos, dentes, pálpebras molhadas,
O seio, encanto que brinca com fogo,
O sangue, luz nos lábios que se rendem,
Os bens finais e os dedos que os defendem,
Tudo retorna à terra e ao mesmo jogo!
E tu, grande alma, por um sonho esperas
Que já não tem as cores das quimeras
Que a humanos olhos o ouro e a onda trazem?
Cantarás, quando apenas vaporosa?
Tudo me foge à presença porosa,
Sagradas ânsias também se desfazem!
Magra imortalidade, negra e de ouro.
Consoladora horrível em seus louros,
Que fazes da morte um seio materno,
Bela mentira, a cilada mais pia,
Quem não conhece e quem não repudia
O crânio oco, este sorrir eterno?
Profundos pais, cabeças desertadas,
Sob o peso e o trabalho das enxadas
Sois a terra, e os passos nos perturbais;
O irrefutável roedor, o verme,
Não é para vós, que dormis inermes,
É para a vida e não me deixa mais!
Amor, talvez, ou ódio é que o anima?
Tanto o seu dente oculto se aproxima
Que os nomes todos lhe são convenientes!
Que importa? Ele vê, sonha, quer, reclama!
Ama-me a carne, e mesmo em minha cama
A este ser pertenço eternamente!
Zenão, Zenão de Eléia, desumano!
Feriste-me de um dardo alado e insano
Que voa e está inerte nos espaços!
Gera-me o som, rouba-me o dardo a vida!
Ó sol… Que tartaruga à alma surgida,
Ver Aquiles imóvel nos seus passos!
Não, não!… De pé!… às horas sucessivas!
Quebra, meu corpo, a forma pensativa!
Bebe, meu seio, a brisa renascida!
Um novo frescor, do mar exalado
Devolve-me a alma… Ó poder salgado!
Vamos à onda, ao ímpeto da vida!
Sim! Grande mar de delírios dotado,
Pelo de pantera, manto rasgado
É por mil ídolos do sol ferido,
Ébria da carne azul, hidra absoluta
Que em luz a própria cauda morde e luta
Num tumulto ao silêncio parecido,
Eis se ergue o vento!… Há que tentar viver!
O ar me abre e fecha o livro que ia ler;
Vaga audaciosa, às rochas te esfacelas!
Pois voa, página que enlouqueceste!
Rompei, vagas,de águas felizes, este
Teto tranquilo onde bicavam velas!
(TRADUÇÃO DE JORGE WANDERLEY)
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