13 de maio de 2008

A ESTRADA NÃO TRILHADA (Robert Frost)

(Lembro aqui um dos poetas favoritos, com um dos meus poemas favoritos, que sempre diz tanto de cada um de nós, que, em momentos de extrema angústia, perguntamo-nos sobre as várias possibilidades de outras existências, talvez todas levando a lugar algum.)

The Road Not Taken (Robert Frost)

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I-
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.


A estrada não trilhada (Trad. de Renato Suttana)

Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se,
mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria.
Assim, por longo tempo eu ali me detive,
e um deles observei até um longe declive
no qual, dobrando, desaparecia...

Porém tomei o outro, igualmente viável,
e tendo mesmo um atrativo especial,
pois mais ramos possuía e talvez mais capim,
embora, quanto a isso, o caminhar, no fim,
os tivesse marcado por igual.

E ambos, nessa manhã, jaziam recobertos
de folhas que nenhum pisar enegrecera.
O primeiro deixei, oh, para um outro dia!
E, intuindo que um caminho outro caminho gera,
duvidei se algum dia eu voltaria.

Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que mais ínvia me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.

21 de abril de 2008

Poema a quatro mãos (Tyta Dutra e Binho Santos)


Numa mesa, num bar


Sentado entre amigos na mesa do bar,

Poesia, música, besteirol, cerveja, fumaça de cigarro,

Uma proposta: poesia a quatro mãos.

Minhas mãos calejadas

De estar sozinho na noite,

Masturbação do pensar,

Escrever com gosto

O rosto que não há.

Poesia erótica pra atiçar

A mente a mão já aquecida a escrever

O corpo já molhado depois do prazer de escrever,

De degustar as coisas boas da vida:

Os amigos, a bebida,

A poesia, a cançao desta vida,

Esquecer, sem piedade, o corre-corre da avenida.

Amar, sem concessões, os desafios

Desta vida...

Mesmo perdidas, as almas

Se reconhecem...

Aqui estamos... aqui estamos...

Aqui estamos... sem saída.

Dois poetas (Gabriela Cuzzuol e Carlos Savasini)


Minha homenagem a dois grandes amigos que, por uma dessas coincidências somente pela Vida conhecidas, são também dois grandes artesãos do Verbo. Minha forma de celebrar essa ocasião: uma dádiva oferecida por algum ser velado, chame-se ele Destino ou Acaso. O que passou, o que passará: o que passa. Mas a Arte, a qual sempre sobrevive a todas as correntezas...


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AGORA

Agora que eras
A sanidade da mente minha;
Clamor que a oração continha;
Ponta de luz revirando o mal;

Eras o bem que em verdade traduzia;
Caminho que a si próprio descobria;
Chance divina do cumprimento cabal;

Eras a ponte entre Deus e minha incerteza;
Salvação da descabia tristeza;
Vida, vontade irracional;

Eras a brisa que o vento trazia;
Taça de sol que o mar oferecia;
Fim de lamento, entorpecer boçal;

Eras o leve que o entardecer previa;
Futuro em que mal não havia;
Afirmação, reinício brutal;

Agora que eras;
E que há eras não és mais;
Agora em que não és;
Há eras;
E agora;
O que és?
Agora?
O que é Agora?


Gabriela Cuzzuol

10 de junho de 2007.


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VIRÁ

A saudade, alimento da vontade
que transborda nos poros do desejo
nos transporta aos pilares da verdade
e conspira na falta que não vejo.

O futuro, artesão do sem idade,
sedimenta o passado em azulejo
em paisagem que vive sem bondade,
o de fato é aquilo que eu almejo.

Ao que foi, ao já era, na lembrança
tudo fica do jeito que a criança
que já foi e que busca o que virá.

Ao passado, por tudo que passou
eu não guardo miçangas, pois eu dou
o meu sangue ao que vem, ao que virá.


Carlos Savasini

09 de março de 2008.

17 de abril de 2008

Em meu ofício ou arte taciturna (Dylan Thomas)


Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.
(tradução: Ivan Junqueira)

(Um dos poemas mais simples e mais verdadeiros sobre o que é isso, o escrever, um fardo, um ofício, um prazer, um vício.)

3 de abril de 2008

O Sono e a Letra

Por entre as trilhas do inconstantemente
Lavras, fecundas palavras, poeta
As lamas áridas do inconsciente,
Fazes do nada um trabalho de esteta.

Tua visão glauca tornas semente
E mundos constróis de teu ser asceta.
Sabes, porém, a finitude do ente,
Sopro vital que a vida mesma veta.

Dorme, poeta, que teu rosto inerme
Morre na sombra, soçobra na tarde,
Pobre coração que bate mas arde.

Teu canto supera teu fim de verme,
Far-se-á estátua, música da neve,
Poema a tornar o tempo mais leve.

15 de março de 2008

Páthos

A vida tem dúvida de si. E eu duvido de mim. Quisera eu ser como o tronco da mais humilde madeira, estátua para o caleidoscópio do tempo, de todos os fractais do tempo. Meu propósito inseguro de desnudar correntes marítimas e o mistério da morte. A morte de que vive minha angústia. Quisera ter nascido do sexo dos astros, caminhar intimorato e sem escudos pelos bosques do Inominável, tocar curioso e impensativo uma vaga noção de amor, como faria uma criança com asas de fogo. Permanecer incólume ao conflito entre o Verbo e o Ato.
Mas, diante do meu olhar inerte, o mundo, esta casa passageira, me desabita. Sou rebento da sua impotência. Nada se conquista para além da espessa cortina que fere o Cosmos.
E, enquanto minha consciência sofre com o eclipse desses passos exaustos, dessa vista embaciada, vou nutrindo minha alma de comprimidos de Gardenal.

12 de março de 2008

Passeio na casa

Procuro-te nos guardados
Garfos copos guardanapos usados
Tão complexo este jantar sem ti
Mordo cada naco de carne insossa
E só teu abraço me conforta de mim.

Distante na minha terra
Escondes teu rosto
Entre mãos que outrora já
Afastavam de mim o calor da noite de março.

Quantos rasos penetrarás
Na tua ausência em mim?
Responde, caçador da madrugada.